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Por Bárbara Bueno*

Como advogada e, acima de tudo, como mulher e mãe, acredito que a essência da minha atuação está em ouvir as pessoas e buscar entender suas dificuldades. A experiência de trabalhar com projetos sociais me ensinou que é fundamental que as pessoas sejam protagonistas da sua própria transformação. É por isso que no Instituto Camargo Corrêa priorizamos soluções locais que deem autonomia às comunidades e que as permitam ter autoridade sobre seu futuro.

Em um dos nossos projetos, “Mulheres Pela Vida: seus direitos e sua cidadania na cultura de paz”, em parceria com as Promotoras Legais Populares de Santo André, a nossa missão é fortalecer a rede de proteção à mulher, oferecendo a elas formação sobre direitos humanos, violência doméstica e Lei Maria da Penha. Nesse caso, o foco foi atuar como agente de transformação não apenas na comunidade, mas na realidade íntima de cada mulher beneficiária do projeto. Em seis meses de atividade, realizadas na zona leste de São Paulo, atuamos na conscientização das vítimas de violência em busca do resgate de sua dignidade, as capacitamos em direitos humanos, promovemos oficinas profissionalizantes e criamos oportunidades para que as mulheres de comunidades vulneráveis possam transformar sua realidade.

Por  outro lado, o projeto “Mel da Mata” é um exemplo primoroso de desenvolvimento comunitário que, há quase 20 anos, tem mudado a realidade de Juquitiba,  cidade situada a uma hora de São Paulo. A região, rica em natureza, mas carente de oportunidades, viu no projeto uma chance de criar uma fonte de renda sustentável. Começamos em 2016, oferecendo cursos de apicultura e empreendedorismo, e, a partir disso, uma cooperativa local foi formada, o que resultou em um aumento de 75% no número de apicultores na região. Hoje, os produtores comercializam mel com selo estadual, gerando renda, preservando o meio ambiente e promovendo a sustentabilidade em uma região da Mata Atlântica. Este projeto une aspectos voltados à educação, empreendedorismo e sustentabilidade, aderente à agenda ESG desde 2016.

Diante dos exemplos, acredito que o Investimento Social Privado (ISP) é uma ferramenta poderosa para impulsionar o desenvolvimento territorial, mas é essencial entender as especificidades de cada região. Cada local tem suas próprias necessidades, desafios e culturas, e é preciso estudar, conversar com os moradores e, principalmente, ouvir o que eles têm a dizer. Temos atuado em diversas regiões, do nordeste ao sul do Brasil, e até fora do país. Em 2019, por exemplo, lançamos o projeto “Quilombo Empreende”, em Sergipe, e há iniciativas em Palhoça, em Santa Catarina, que visam a geração de renda local. A tecnologia tem sido uma grande aliada nesse processo, permitindo o diagnóstico preciso de cada região e a realização de pesquisas para adaptar nossos projetos às realidades locais.

A oitiva zelosa e diligente às comunidades é uma parte fundamental de qualquer Projeto. Em 2024, estivemos na comunidade Anchieta, no Grajaú, em São Paulo, onde ouvimos relatos de famílias que viviam em ruas sem iluminação pública, o que tornava a segurança uma preocupação constante. A insegurança cascateava para a violação de outros direitos fundamentais: os moradores do território se viam impedidos de sair para trabalhar e estudar vítimas do medo da violência facilitada pela escuridão. Com isso, outros problemas assolavam a região, baixo índice de escolaridade, alto desemprego, insegurança alimentícia e risco social. A partir desses relatos, implementamos uma solução sustentável, com postes de iluminação solar feitos de garrafas PET e canos de PVC, em parceria com a ONG Litro de Luz. O impacto foi imediato: as famílias ganharam mais segurança, e o projeto teve um efeito positivo na qualidade de vida e aumento de renda dos moradores.

Outro exemplo de sucesso é a restauração da Escola Municipal Santa Rita, em Ipojuca, Pernambuco, onde mais de 120 voluntários se uniram para revitalizar a escola. O que parecia uma ação simples teve um impacto profundo, renovando a esperança de pais e professores, que agora contam com uma infraestrutura mais adequada para a educação dos filhos.

Contudo, para que tenhamos resultados animadores e impacto positivo, a maturidade no levantamento de dados e transparência das informações é primordial ao investimento social privado. Sou convicta de que é necessário mapear e envolver parceiros estratégicos para que cada projeto tenha a expertise necessária para prosperar. Medir com rigor e expor os resultados de nossos projetos não só é uma forma de garantir a eficiência dos nossos investimentos e recursos, mas também de motivar todos os envolvidos, mostrando que a transformação social é possível. A definição de métricas e índices a serem apurados e exposição de seus resultados é fundamental para fortalecer a confiança de todos os stakeholders e nos dar a credibilidade necessária ao terceiro setor.

No que se refere a governança, minha recomendação é a de sempre envolver todos os departamentos e profissionais de diferentes áreas nas ações. Quanto mais diversa e ativa for a participação dos profissionais das empresas nos projetos sociais e ações de voluntariado, maiores as chances de fomentar o investimento social privado dentro das organizações. Essa participação não só fortalece o ambiente interno, mas também torna o processo mais transparente e colaborativo. Além disso, a adesão ao voluntariado é um grande desafio, mas, com incentivo da liderança e integração das ações ao dia a dia da empresa, conseguimos aumentar em 138% a participação dos profissionais nos programas de voluntariado no último ano dentro do nosso Grupo. Essa adesão não só melhora o impacto das nossas ações, mas também fortalece a cultura de responsabilidade social dentro das empresas nas quais atuamos.

O investimento social privado tem o poder de transformar histórias e territórios, mas para isso é fundamental que ele seja executado de forma transparente. O olhar sensível e a escuta ativa às comunidades e o envolvimento próximo com parceiros estratégicos são nossos principais investimentos para garantir que os projetos não sejam apenas temporários, mas que gerem resultados duradouros e impactem positivamente a vida das pessoas e comunidades.

*Bárbara Bueno é diretora Executiva do Instituto Camargo Corrêa, conselheira no Instituto CCR e conselheira do Conselho Superior Feminino – CONFEM da FIESP. Graduada em Direito pela Universidade do Vale do Paraíba e com pós-graduação em Direito Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas.

Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do GIFE e de seus associados.

Fonte: GIFE

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