No Brasil, a confiança tornou-se uma das moedas mais disputadas da agenda pública. Quando ela se fragiliza, instituições de todos os tipos – do Estado às empresas – vêem seu papel questionado, e a cooperação necessária para enfrentar problemas coletivos enfraquece. No terceiro setor, entender o que faz o brasileiro confiar é mais do que uma questão de percepção: é um fator determinante para a sustentabilidade das Organizações da Sociedade Civil (OSCs).
Esse movimento acompanha um quadro mais amplo: segundo o Índice de Confiança Social 2025 (Ipsos/Ipec), todos os 20 segmentos institucionais avaliados, das Forças Armadas às igrejas, passando por meios de comunicação e corpo de bombeiros, registraram retração na credibilidade, evidenciando que a crise de confiança atravessa a sociedade como um todo.
“A confiança é um fator relacional e centrado em valores, crenças e identificação com causas, pessoas e organizações. A filantropia baseada em confiança é fundamental enquanto uma visão que leva em consideração elementos de equidade, de redistribuição de poder, de cultura, de estruturas e da prática das organizações e das pessoa,” explica Patrícia Kunrath, coordenadora de Conhecimento do GIFE.
Para Andréa Wolffenbüttel, do Comitê Gestor da Sociedade Viva representando o Observatório do Terceiro Setor, os números não surpreendem. Ela acredita que a crise de confiança não se deve à falta de transparência por parte das ONGs, mas à uma conjunção de fatores externos. Entre eles, as desinformações e ataques contra essas instituições, e até mesmo a fraca cobertura jornalística do trabalho realizado por elas. “Oscila entre apresentar casos de assistencialismo e denunciar escândalos, sem se aprofundar na atuação do terceiro setor e sem informar a população sobre quem somos e o que fazemos. Infelizmente, caberá às ONGs o desafio de trabalhar para reconquistar e ampliar a confiança da população.”
Reforçar o papel transformador que a doação possui na pavimentação de uma sociedade mais justa também surge como um ponto central, de acordo com Jonathas Azevedo, diretor executivo da Rede Comuá. “É importante perceber a doação não como caridade, mas como um catalisador de transformações, movido por demandas de grupos e comunidades em seus territórios. Conhecer as organizações é fundamental para construir essa relação de confiança”, opina.
Diante desse cenário, lideranças do terceiro setor avaliam que, mais do que prestar contas, é preciso cultivar relações próximas, demonstrar impacto de forma tangível e comunicar com clareza os valores que sustentam cada iniciativa.
“Essa crise de confiança é um grande desafio para a sustentabilidade e captação de recursos. Cada vez mais as organizações que souberem ser transparentes, prestar contas, criar narrativas engajadoras, demonstrar seus resultados, vão surfar melhor nessa onda de desconfiança”, comenta Fernando Nogueira, diretor executivo da ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos.
Ponto de vista partilhado por Patrícia Kunrath. “A construção de relações sólidas é fundamental para o fortalecimento da confiança. É preciso trabalhar em alinhamento de valores das pessoas, instituições e causas sociais e ambientais que surgem por ações para o bem comum.”
Nesse percurso, alguns elementos podem fortalecer ou fragilizar a construção dessa confiança. Fernando Nogueira chama atenção para os fatores pessoais – como indicação de OSCs por pessoas próximas, conhecer quem trabalha na organização, ser ativista daquela causa, ou já ter sido beneficiado por ela – e impessoais – prestação de contas, auditorias e demonstração de resultados. “A gente tende muito mais a doar quando, além desses fatores impessoais, temos a confiança mais próxima da nossa identidade, dos nossos valores”, acrescenta.
Nildamara Torres, coordenadora de Pesquisa da Iniciativa PIPA aponta outros critérios que considera importantes, como: adaptar formatos de prestação de contas, realizar devolutivas presenciais em rodas de conversa, desburocratizar formatos de avaliação e criar protocolos conjuntos de accountability com os grupos apoiados.
“Acreditamos que a confiança é sustentada por vínculos contínuos, construídos com base em reconhecimento, tempo e presença, e que só é possível cultivá-la com práticas concretas de redistribuição de recursos, escuta ativa e responsabilidade compartilhada”, afirma.
Vivian Fasca, também integrante do Comitê Gestor da Sociedade Viva, representando o Movimento por uma Cultura de Doação, afirma que a prestação de contas não deve ser entendida apenas como uma obrigação burocrática.
“A transparência vai além. Não basta disponibilizar uma demonstração financeira no site. É, por exemplo, produzir um relatório anual que apresente os projetos desenvolvidos, o impacto gerado, de onde vieram os recursos, como foram aplicados. É fundamental contar histórias de impacto positivo, tornando tangível a transformação promovida. Esse tipo de comunicação gera proximidade e segurança para que as pessoas se sintam confortáveis em apoiar.”
Em um sentido macro, Beatriz Waclawek, gerente de Investimentos Sociais do Movimento Bem Maior, atrela a cultura de doação no Brasil à necessidade de fazer a sociedade compreender amplamente o papel social que esse ato carrega.
“É muito importante enxergar que a doação não é apenas uma transferência de recurso. A doação tem a ver com o fato de se reconhecer como parte de uma comunidade maior, que aquela ação está complementando outra e juntas elas vão se transformar em impacto social”, avalia Beatriz, que ainda defende o papel da comunicação estratégica.
“Eu tenho uma sensação que é muito mais sobre uma narrativa que está desalinhada entre esses dois públicos do que, de fato, uma necessidade de maior transparência. Tem a ver com a estratégia de comunicação”, completa.
- Alinhar valores entre doadores e organizações
- Fortalecer vínculos pessoais e coletivos
- Redistribuir recursos com responsabilidade compartilhada
- Ir além da prestação de contas formal e praticar accountability colaborativa
- Investir em comunicação estratégica e engajadora
- Cultivar presença, tempo e continuidade
Fonte: GIFE