Passado quase um ano do início da pandemia, os dados consolidados dão uma amostra do tamanho de suas consequências socioeconômicas. A Organização Internacional do Trabalho publicou, em janeiro, um relatório sobre 2020 segundo o qual houve perda de 225 milhões de postos de trabalho, resultando numa queda de U$ 3,7 trilhões na renda mundial. Mulheres e trabalhadores jovens de áreas vulneráveis foram especialmente impactados. As organizações da sociedade civil estiveram desde o começo atuando na ponta para aplacar esses efeitos negativos. Mas também sofreram bastante com a aguda piora da economia mundial. 

Monitor de Doações da Associação Brasileira de Captadores de Recursos apontou que mais de R$ 6,5 bilhões foram doados em 2020 para ações relacionadas à Covid-19. No entanto, no começo de abril, uma pesquisa da Agência do Bem, realizada com 231 diretores de OSC, revelou que 67% relataram queda de receita acima de 50%, e 83% previam riscos concretos de fechar as portas ou reduzirem muito suas atividades. Um estudo realizado em junho de 2020 pela Fundação FEAC com 66 entidades parceiras apontava também um cenário pessimista. 52% relataram queda de doações e 55%, perdas de recursos de fontes próprias, como festas e bazares. 

Os números trazidos pelas OSC parecem um paradoxo em relação ao montante doado. “Houve um boom de doações, mas, depois, aconteceu um refluxo, e as pessoas preferem doar produtos ou dinheiro apenas para os projetos. Não querem doar para o funcionamento da instituição”, explica Nathalia Garcia, líder do programa Qualificação da Gestão da FEAC. 

Isso trouxe grandes desafios para as entidades. Logo no começo da pandemia, a Phomenta, consultoria de gestão para organizações do terceiro setor, apresentou à FEAC o projeto do Portal do Impacto. “Foi nossa primeira ação. Era um site voltado para sanar dúvidas e questões das organizações durante a pandemia. Do dia para a noite, tudo mudou”, continua Nathália. 

O portal traz informações sobre as mais variadas temáticas, como a saúde mental dos colaboradores, gerenciamento de crise e planejamento emergencial 

A FEAC também percebeu que havia uma série de temas relacionados ao setor que não iriam parar com a pandemia, como a renovação da Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social (Cebas) e a adequação à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), de 2020 

As organizações têm prazo para isso, caso contrário, perdem a certificação. Nós acompanhamos esse procedimento”, diz Nathália, que acrescenta: “Fizemos alguns encontros para discutir a adequação à LGPD, pois as OSC poderiam ficar em situação ilegal se não o fizessem”. 

Foi dentro do projeto Ponto Org da FEAC que se deu a discussão sobre a LGPD. Essa plataforma também serviu para outras questões mais relacionadas à gestão durante a pandemia, como redução de jornada de trabalho e passivo trabalhista.  

Muitas das organizações parceiras da FEAC conseguiram passar por 2020 com alguma tranquilidade por causa de parcerias com o setor púbico. Durante a pandemia, foi permitido que recursos carimbados, que só podem ser usados para um determinado fim, fossem utilizados livremente. 

Cláudio Raizano é coordenador de atividades dProjeto Gente Nova (Progen), que recebe a maioria de seus recursos de termos da prefeitura de Campinas. Ainda assim, ele afirma que “houve uma queda grande de captação com doadores privados, algo em torno de 30%”. Por isso, ele diz que muitos projetos estão sendo adaptados para continuarem em 2021. 

Já a associação Amigos da Criança (Amic), também de Campinas, recebe mais de 85% de seus recursos de parcerias com o poder público, e sentiu queda acentuada de captação direta com a impossibilidade de realizar bazares e jantares beneficentes. “Tivemos de fortalecer as doações vindas de pessoas físicas e jurídicas. Também repactuamos um projeto em parceria com a FEAC. De construção de casas, passamos a distribuir marmitas”, conta Ana Lídia Rodrigues, coordenadora da Amic. 

Parcerias

Uma das principais consequências da pandemia foi a necessidade de rapidamente mudar a forma de atuação nas OSC. O caso da Amic não foi exceção. “No começo da pandemia, havia muita vontade de fazer, mas o terceiro setor e especialmente a filantropia e o investimento social privado (ISP)  no Brasil não tem tradição nem como foco principal a atuação em situações de emergência”, constata Erika Saez, coordenadora do projeto Emergência Covid-19, iniciativa do Gife que criou um espaço para fortalecimento em rede das organizações de filantropia e ISP e para a troca de experiências sobre a atuação com a Covid-19.

Erika ressalta que situações de emergência têm uma dimensão inescapavelmente assistencialista. “Por um tempo, a necessidade deixa de ser fazer formação de professores, mas sim doar cestas básicas.” 

Uma pesquisa interna do Gife apontou uma mudança fundamental entre seus membros durante a pandemia. Usualmente, preferem gerir projetos próprios. Durante a pandemia, no entanto, 59% deles doaram para outras organizações, um aumento de 10 pontos percentuais em relação ao último estudo feito pela instituição entre seus membros, em 2018. 

“Houve um fortalecimento nas parcerias e na colaboração de forma geral, dando-se mais autonomia para as entidades que atuam no território, que sabem mais sobre as necessidades locais”, diz Erika. 

Pós-pandemia

Se houve um grande choque no terceiro setor por causa da Covid-19, o que afinal irá ficar? 

Para Nathália, líder da FEAC, mudou a percepção que as organizações têm umas sobre as outras e isso deve permanecer. “Às vezes, elas se consideram concorrentes na disputa por recursos. A pandemia, no entanto, ressaltou a importância da colaboração e do trabalho em rede.” 

Já Erika enfatiza uma maior flexibilização, que deve continuar. “Processos foram agilizados, as instituições ficaram mais flexíveis, vai haver mais espaço para ouvir parceiros”, diz a representante do Gife, ressaltando também a importância do trabalho em rede. 

Ela deixa, porém, uma nota preocupante no ar. “Não há perspectiva sobre o fim da pandemia, e mesmo quando ela acabe, muitas consequências permanecerão. Mas sabemos que a mobilização de 2020 não deve se repetir na mesma intensidade em 2021 para ação emergencial”, finaliza. 

Mais do que um tom pessimista é um chamado à mobilização. A sociedade precisa cada vez mais das OSC – e vice-versa.  

 

Fonte: FEAC

Terceiro Setor

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