Levar livros, educação e fantasia para a vida de crianças, adolescentes e adultos em comunidades vulneráveis nas cidades e no campo é um dos objetivos dos projetos Cantos de Leitura e Leitura no Campo, realizadas pela Rede Educare. A iniciativa, que conta com financiamento obtido por meio da Lei Rouanet, consiste na montagem de bibliotecas comunitárias em locais que levam a potenciais leitores os livros que eles teriam dificuldade de acessar de outra forma.

Uma das bibliotecas do projeto funciona na Cooperativa de Catadores Pro-Recife, que reúne catadores de material reciclável na capital pernambucana. Inaugurada no dia 1º de setembro de 2017, nas instalações da própria cooperativa, a biblioteca atende diariamente duas turmas, cada uma com 30 crianças.

Sócio-fundador da cooperativa, José Cardoso é um entusiasta do poder transformador da cultura. “Eu acho que a gente não pode perder a esperança. E esse projeto foi muito bom para dar mais gás para eu continuar trabalhando”, avalia.

Na outra ponta, a satisfação de quem vê seus escritos mais próximos de um novo público. “Como autora, eu entendi que meu trabalho não era suficiente. Eu tinha que fazer os livros chegarem até as crianças para ajudá-las a criar hábitos de leitura”, relembra a historiadora Kátia Rocha, presidente da rede Educare e idealizadora dos projetos.

Dançando conforme a música

Como acontece com projetos de maior duração, o Cantos de Leitura foi aperfeiçoado ao longo de suas três edições. Iniciada em 2013, a proposta já é responsável pela criação ou reforma de 21 bibliotecas em todo o País e, até o fim desse ano, outras nove unidades serão entregues.

Ao longo desse período as realizadoras desenvolveram uma metodologia para a construção das bibliotecas e constituição do acervo de referência. Cada biblioteca possui em torno de 1.200 títulos das principais editoras nacionais, que são escolhidos em parceria com técnicos da entidade beneficiada, para atender ao perfil do público.

A ideia é assegurar a oferta de obras clássicas, mas sem deixar de contemplar títulos de maior apelo aos leitores jovens, como a série Harry Potter. “Além desses, buscamos sempre colocar títulos que conversem com a realidade das comunidades, que falem de cidadania, igualdade de gênero, e sempre buscamos títulos em braile”, explica Kátia Rocha.

Outro destaque do projeto é o plano para o empréstimo de livros. Nos primeiros meses os livros só podem ser lidos nas dependências da biblioteca. É o tempo para os usuários criarem familiaridade e aprenderem a valorizar os livros. “Eles começam a namorar os livros”, diz a presidente da Educare. Depois da iniciação à leitura e à valorização do livro, processo que dura entre três e seis meses, começa o programa de empréstimo, que é todo feito om fichas catalográficas.

Brinquedoteca Mariele Franco

Uma das últimas unidades entregues foi a do Museu da Maré, no Rio de Janeiro. De acordo com Luiz Antônio de Oliveira, diretor do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM) e do Museu da Maré, o espaço do Cantos de Leitura foi adaptado para ser uma brinquedoteca, uma vez que o museu já tinha um local dedicado à literatura, que ficou para uso de adolescentes e adultos, o recém inaugurado foi inteiramente destinado ao público infantil.

A coordenação do museu preparou um programa especial para utilização do espaço e fez acordos com escolas da comunidade para levarem suas turmas até a biblioteca. Por causa dessa programação específica, foi necessário capacitar os mediadores que acompanharão as crianças durante as visitas. “Nós treinamos os mediadores para receberem as turmas infantis e fazerem um trabalho continuado com as escolas. O museu é um espaço de memória, de identidade para a comunidade da Maré, e a brinquedoteca vem somar com todo o ambiente”, explica.

A brinquedoteca foi batizada com o nome da vereadora Marielle Franco pelos alunos que já foram até o local. ” A Marielle era da comunidade, estudou no CEASM, era uma referência aqui”, afirma Luiz. “Na Maré vivem cerca de 150 mil pessoas e todo o trabalho que fazemos é de formiguinha, de fazer com que o morador conheça a sua história, a do seu território, é um trabalho de formação de identidade. Com a brinquedoteca, podemos fazer isso desde a infância”, ressalta Oliveira.

Aonde os livros não chegam

Já o projeto Leitura no Campo, também realizado pela Rede Educare, reforma espaços já existentes para levar a literatura e o saber a localidades rurais aonde os livros já quase nem chegam. Um destes locais é um assentamento rural de Petrolina, onde já havia uma escola que recebe 1.700 alunos, mas não tem espaço de leitura. Hoje, essa biblioteca é uma das dez previstas pelo projeto em 2018.

“Os projetos são perenes, não acabam na hora em que se inauguram as bibliotecas, os livros ficam lá. A empresa que financia pode ter um custo de, por exemplo, R$100 mil com um projeto, mas ele vai ficar para sempre para a comunidade, vai ajudar a criar hábitos de leitura. Nós mudamos vidas com isso”, afirma Kátia Rocha.

Inscrito para captação de recursos via Lei Rouanet desde 2013, em suas 3 edições, o Cantos de Leitura já conseguiu captar R$2,9 milhões via incentivo fiscal. Já o Leitura no Campo já captou em sua primeira edição R$1.418,00. Além do acervo, os projetos são responsáveis pela ambientação dos espaços, que contam com estrutura para atividades como contação de histórias, teatro de fantoches, dramatizações.

Fonte: Grupo Orzil

https://www.orzil.org/noticias/projetos-financiados-pela-lei-rouanet-levam-literatura-a-comunidades-vulneraveis/

Terceiro Setor

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